Vitórias compradas, alegrias vendidas

“Expectativa e euforia se misturam na barulhenta desafinação do alarde em torno do confronto tão esperado. De um lado um time com os brios feridos, desejoso de vingança por causa de uma derrota sofrida vinte e sete anos antes, e com um novo elemento capaz de desequilibrar qualquer disputa. De outro, a equipe respeitada internacionalmente e tradicional, com o técnico mais vitorioso de todos os tempos. Quarenta dias foi o tempo da preparação, marcado por acusações mútuas, insultos entre torcidas, provocações de toda ordem. Em jogo grandes fortunas, prestígio, ufanismo vitorioso, e o maior título de todos os tempos. Perfilam-se em campo os oponentes, transpirando coragem, dispostos a honrar as cores de suas bandeiras; não cantam qualquer hino nacional, mas antes que alguma estratégia seja usada, o craque gigante dispara ofensas que atingem em cheio o mais inexperiente e solitário atacante, ainda no banco de reservas, quase um expectador, de tão insignificante. Consumido de zelo pelo brasão sagrado que leva no peito, motivado para defender a reputação de quem representa, ignorando todas as vantagens em jogo do ponto vista humano, os resmungos de seus próprios irmãos, a inconstância da torcida, o candidato a herói rebate o discurso veementemente e perfila-se para o confronto com a coragem inversamente proporcional ao tamanho das batalhas que já havia vivenciado. Sem qualquer apelo ao talento, à técnica, a um pretenso espírito guerreiro, sem pieguices religiosas, mas simplesmente fortalecido por sua fé no único Deus, o ponta de lança despreza as formalidades e em uma só jogada, fulminante, liquida a partida, humilha o adversário, levando sua torcida, ainda incrédula, ao delírio, e a um aliviado sentimento de superioridade.”

A linguagem é atual, mas o evento narrado, a batalha entre Davi e Golias, um dos mais conhecidos da Bíblia, aconteceu há milênios. Até hoje ele é visto como uma espécie de referência em confrontos de toda natureza, inclusive esportivos. Sermões, preleções, palestras motivacionais, filmes, cheios de emocionalismos, conclamam a um estilo de vida vitorioso, levando multidões a crer que a vida é como uma partida de futebol, de preferência com a pompa de uma final de copa do mundo, onde o êxito está quantificado no saldo entre gols marcados e sofridos, títulos reconhecidos pelas grandes massas, desafios de superação vencidos, e fortunas amealhadas por poucos privilegiados. Definitivamente, a dinâmica do esporte não se aplica à vida. E Davi é o antidesportista nesse sentido.

O menos vistoso de todos os filhos de Jessé não tem patrocinadores poderosos, não figuraria na capa da mais simples revista que houvesse, não seria entrevistado ou tietado. É um rapaz simples, cuja única ambição é desfrutar de um relacionamento com Deus. Longe dos olhares, na solidão dos seus afazeres pastoris, ele encontra oportunidades para conhecer a força do Senhor de Israel, e viver a verdadeira espiritualidade, que “consiste em ter um relacionamento adequado com o Deus que está aí; (…) continuado, a cada instante da vida, como um Deus que existe de fato.”[*]

O menino que viria a ser Rei, da linhagem do Messias, não se deixa aprisionar pelos desejos de fama, glória humana, recompensas materiais. Enfrenta seu opositor com a firme convicção de que sua pessoa é irrelevante, absolutamente insuficiente, mas que o seu Deus é libertador. Não busca vencer por si, não ama o calor da batalha, almeja ser instrumento de libertação e coloca sua fé em jogo, certo de que a vitória está assegurada. O jovem matador de feras tem um único propósito – “vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de israel, a quem tens afrontado (…) toda a terra saberá que há Deus em Israel.”

Em meio à gritaria destes dias de euforia e depressão, e de falsa motivação patriótica, o grande herói não veste verde e amarelo, não chora diante de câmaras de televisão, não tem habilidade com os pés, não pisa gramados em lugares cujos nomes apelam a batalhas, e é conhecido por um nome só: Davi. Nele podemos encontrar um exemplo maiúsculo de dignidade – a de um coração sincero diante de Deus – e lições para uma vida genuinamente triunfante.

O verdadeiro campo de batalha não é um gramado delimitado por quatro linhas brancas, é o nosso coração, onde o pecado insiste em avançar com ímpeto em estratégias diversas. Além do que, somos levados a crer que nossas grandes lutas são contra os problemas; e não é que eles não existam, que não nos aflijam, que não nos derrotem; são muito menores em face do prejuízo causado irremediavelmente pela vitória do mal sobre nós. O próprio matador de gigante é exemplo negativo também, quando se deixa vencer por sua predisposição para o erro. Poder, autogratificação, autoindulgência, autodeterminação, prazeres, dentre outras mazelas da alma, são vitórias compradas por preços absurdos, alegrias vendidas por valor de centavos.

O pecado vive nos insultando, pressiona como uma torcida enlouquecida; ele quer a vitória a qualquer custo, não importa o que for vendido ou comprado. O despojamento de Cristo na cruz é único recurso para uma vitória definitiva.  “e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.” (Colossenses 2:15).

Estaríamos hoje bem mais felizes se nosso choro fosse de arrependimento. Estaríamos ainda mais exultantes se nossa vitória fosse contra o pecado. Estaríamos infinitamente mais alegres se nossa razão de viver estivesse somente em Deus, sem nada a comprar, nem vender!

Pr. Wilson Avilla


[*] Peter Schaeffer

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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