Síndrome de arquibancada

Em tempo de arenas futebolísticas ‘padrão FIFA’ construídas sobre custos reais incalculáveis, falar de arquibancada parece tão antiquado e impróprio como falar de carroça para apreciadores de carros de alta performance. Mas a denominação acima é a que me parece mais apropriada para um conjunto de sinais e sintomas preocupantes que tem sido observado em pessoas que se dizem cristãs, frequentadoras de cultos, e até membros de igrejas. Não há nada comprovado cientificamente, entretanto, todos os sinais são evidenciados por algumas condutas típicas, de etiologia simples, mas de graves consequências. 

Os indivíduos acometidos por essa síndrome não conseguem sentir-se parte da família de Deus. Mesmo estando junto a todos, e por vezes participando dos esforços da igreja, agem como se estivessem à margem, por opção própria, motivados por um sentimento de superioridade ou por sensos diversos de inadequação. Nos cultos, não participam, assistem-nos; na oração, não se humilham, exaltam-se acima dos demais, não pedem, sugerem a Deus; nas ofertas, não cooperam, demonstram sua generosidade.

No seu ministério terreno Jesus foi seguido de perto por uma turma que sentava na arquibancada onde quer que Ele fosse. Essas pessoas, certamente vitimadas pela síndrome, não criam na filiação divina do rapaz de Nazaré, tampouco em sua mensagem; pediam provas, questionavam sua autoridade; não poupavam críticas, recriminações, e eram rápidos nas iniciativas para coloca-Lo em dificuldade. Esse é também um sintoma da síndrome. Elogios ou críticas tornam-se armas ou instrumentos de barganha conforme a situação. Nas mesmas fileiras dos fariseus sentam-se hoje outros vitimados pelo mesmo sintoma; estrategistas, analistas, como se veem, tão competentes como qualquer torcedor nos seus inúmeros e inúteis pitacos, julgam-se aptos a analisar, à distância, cada movimento do Evangelho e dos que por este trabalham.

Mas o que é mais característico da síndrome é mesmo o gosto pelo espetáculo. Pagando ingresso ou não, seja para ver leões ferozes, jogadores se enfrentando, ou gladiadores se atacando, há séculos multidões se juntam em praças para prestigiar tanto a morbidade quanto a virtude. Lamentavelmente, as igrejas sofrem com esse tipo de gente, que por não compreender o que verdadeiramente é oferecido a Deus, chamam palco de altar, valorizam exibições como se adoração fosse, investem na aparência e no aparato, e se distanciam da verdade comunicada por Jesus às multidões e aos seus seguidores próximos.

Por fim, um outro sinal da perigosa síndrome de arquibancada é o foco nas pessoas. Depois de ser arguido por discípulos de João Batista sobre sua identidade, Jesus perguntou aos que lhe ouviam: “O que fostes ver no deserto?” (Mateus 11:7a) As pessoas que acorriam a Ele, atraídas por seu discurso e poderosos feitos, eram as mesmas que haviam procurado João. Como o foco era nas pessoas, não podiam compreender o que da parte de Deus estava sendo oferecido – a oferta de um reino, e de salvação, como jamais se poderia imaginar, feita para todas as pessoas, indistintamente, por alguém humilde, enviado do Pai para formar uma nova família, uma nova sociedade, e um novo futuro.

Em meio a mais um dos muitos questionamentos que enfrentou, Jesus falou aos seus oponentes, deixando um princípio maiúsculo sobre a identidade dos que lhe seguem – “Quem não é por mim é contra mim, quem comigo não ajunta, espalha.” (Lucas 11:23) Tanto quanto em outros ensinos correlatos (cf. Lucas 11:24-26, Marcos 9:25), o que o Mestre está deixando claro é que não existe neutralidade quando se trata de seguí-Lo. Nossa contemporaneidade, cheia de ‘melindres politicamente corretos ou incorretos’, ávida por neutralidades em um oceano de pluralidade, e em um universo de extremos, é filha de Pilatos. Sim, porque por seu ato, dos mais infelizes da humanidade, de lavar as mãos diante da inocência de Jesus, tornou-se culpado da maior injustiça já perpetrada. Curiosamente, esse prefeito da província da Judéia, que provavelmente tantas vezes esteve em tribunas de honra, em estádios à moda romana, comandando espetáculos horrendos, passou para a história como um ícone e maior vítima da Síndrome de arquibancada.

Há muitas pessoas que estão torcendo por Jesus, sentados alegremente nas arquibancadas da vida. Elas gritam por Ele, se enfeitam para Ele, até mesmo gostam de certas coisas feitas em nome dEle; se reservando, claro, o direito de criticarem à vontade, quando algo não estiver ‘de acordo’. Não querem envolvimento, nem compromissos. São verdadeiros torcedores da fé cristã. Entretanto, o que Jesus está querendo mesmo dizer é que, quando se trata de fé, não há neutralidade.

A obra de Deus não é um jogo, é uma guerra, travada em lugares nos quais não há arquibancada, camarotes, cadeiras numeradas, privilégios ou qualquer requinte. O objetivo comum do mundo é se levantar contra as coisas de Deus (2 Tessalonicenses 2:4). Quem não está com Ele está contra Ele. Somos chamados para ser discípulos, não torcedores. Estar a favor do Senhor é guardar os seus mandamentos. É isso que nos distingue, e ao mesmo tempo o que nos protege da ‘Síndrome de arquibancada’.
http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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