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SERVOLUÇÃO

Por que as igrejas cristãs concentram tanto esforço no treinamento de líderes se Jesus deixou bem clara sua missão, e nossa: preparar servos?

Por que, como crentes, damos mais importância a números do que a pessoas, uma vez que o Mestre não deixou dúvidas quanto ao caráter relacional e pessoal dos seus ensinos sobre o Reino de Deus?

Por que valorizamos programas e projetos grandiosos, se através do próprio exemplo, e com muitas orientações específicas, o Filho de Deus deixou o discipulado como grande ferramenta de crescimento?

Por que insistimos na busca prioritária da excelência no aparelhamento físico da obra de Deus, e na aparência, se a essência do que pregamos é espiritual, com vistas ao que não perece?

Por que nos desgastamos tanto em disputas de poder, inclusive no âmbito eclesiástico, se temos por certo que os critérios que sustentam o Reino Eterno, já anunciados e tornados possíveis em Cristo, não tem qualquer parentesco com as estruturas de dominação terrenas que nos oprimem?

As dificuldades para responder a estas e outra perguntas correlatas são as mesmas para entender a essência do Cristianismo. Aliás, talvez as perguntas contenham as respostas. Empenhamos tanto esforço para treinar líderes porque não entendemos o que é preparar servos. Preferimos a imponência dos números porque desprezamos o anonimato e a falta de glamour do investimento pessoal em vidas. Valorizamos o que tem a aparência de grandeza porque não cremos no poder de Deus como o único capaz de promover sua própria mensagem salvadora. Insistimos na busca do aparelhamento, e na aparência, porque esse ativismo produz um senso pessoal de adequação, mesmo que sem valor eterno. Disputamos o poder por que isso satisfaz nosso anseio por sobrepujar o semelhante, mesmo sabendo que a dignidade da semelhança com o nosso Criador fica ofendida.

As grandes revoluções na história da humanidade deixaram um rastro de sangue e injustiça porque o grande objetivo de todas elas era tão somente a conquista do poder para dominar. As mudanças que delas decorreram nunca promoveram efetivamente o bem comum, ainda que em determinadas situações seja possível constatar aspectos benéficos ou a vitória de alguma causa.

O relato do Evangelho de Lucas, no capítulo 22, é a história de uma revolução, embora não se proponha a isso primariamente, mas bem diferente de qualquer outra em época que seja. É na verdade uma SERVOLUÇÃO – trocadilho simples para mostrar que a revolução do Cristianismo é baseada no sacrifício na cruz e instrumentalizada pelo serviço dos que são salvos por essa grande oferta de amor. Contada em poucas palavras é uma trama que, humanamente, começa com o ministério de Jesus. Por sua integridade exemplar, ensino e ações miraculosas em favor de pessoas fracas, cansadas e oprimidas, os poderes constituídos, religioso e político, sentiram-se ameaçados. A efervescência das inquietações de um povo sofrido foi projetada nEle, tornando-o a esperança mais próxima de uma mudança política e alvo de conspirações de morte. Não alheio a tudo isso, mas convicto dos propósitos do Pai, Ele se reuniu com as doze pessoas que haviam sido discipuladas para ensinar-lhes a última lição, da comunhão, que dentro em breve tomaria forma, de um novo pacto, de contornos eternos, prefigurado no seu corpo e no seu sangue. Mesmo assim, a aula precisou ser repetida em razão de um contenda sobre qual deles parecia ser o maior (v. 24) – “Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós, sou como aquele que serve.” (v. 27). Depois disso, o que se viu foi o maior serviço já prestado à humanidade acontecer sem o apoio daqueles que tiveram o enorme privilégio de aprender como servir com o Mestre. Pela graça do alto, mais tarde, esses seguidores de Cristo entenderam os seus chamados e serviram a Ele tornando-se verdadeiras colunas da igreja que foi construída graças também ao serviço de todos eles.

Sociedade, igreja, família, estão clamando por SERVOLUÇÕES que as restaurem, que façam da humanidade que há nelas uma nova unidade. Não é com leis mais rigorosas, estruturas políticas mais aperfeiçoadas, aparatos tecnológicos, com treinamentos específicos, ou até mesmo com uma reorganização sociológica que isso ocorrerá, mas sim com pessoas transformadas por Jesus Cristo, dispostas a servir a Deus e ao próximo. O cristão é, inevitavelmente, um ser imerso na comunidade – “É impossível haver maturidade na vida espiritual, obediência na caminhada com Jesus e integridade na vida cristã sem uma imersão na comunidade (…) Eu não sou eu por mim mesmo. É na comunidade, e não no individualismo tão alardeado em nossa cultura, que Cristo atua.”[1]-  chamado para transformá-la pelo serviço realizado por amor àquele que veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc. 10:45).




[1] Eugene Peterson, em “A maldição do Cristo genérico”

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.