Secada gospel

         Em tempos de Copa do Mundo a febre futebolística atinge proporções pandêmicas, produzindo uma infinidade de efeitos colaterais. Dentre esses, uma das práticas mais comuns do futebol: “não basta torcer pelo time do coração, é preciso também secar o adversário”, ou os desafetos. Que se diga aos menos avisados que a palavra “secar” na gíria esportiva significa desejar o insucesso da parte contrária, mesmo que não em confrontos diretos.

         Claro que o patrulhamento a favor do politicamente correto (nauseante em alguns comentaristas esportivos) cria eufemismos de bom efeito, tais como “esperar por uma combinação de resultados”, ou seja, mais de um concorrente precisa se dar mal. Outro bastante utilizado: “jogar com o regulamento”, que pode implicar em deixar de lado o fair play e partir para o conhecido “os fins justificam os meios”. Meros expedientes lingüísticos tentando encobrir o óbvio: na prática o que todos desejam é ganhar (e não competir, como queria o barão).

         Os corintianos costumam dizer em tom zombeteiro que todos os brasileiros torcem pelo seu time, alguns a favor e os demais contra. Na mesma linha, ouvi de uma irmã que um certo pastor quando indagado sobre a porcentagem de pessoas que trabalhavam em sua igreja, não pestanejava em responder: “cem por cento”; depois explicava (aos atarantados com pífios dez por cento, modestos vinte, chorados trinta, etc…) que metade trabalhava contra e a outra metade a favor.

         Esporte é esporte, igreja à parte! Será? Cada vez mais o chamado “povo de Deus” se vale da dinâmica do esporte para motivar suas ações.

         Para nossa tristeza, quem já não observou acirradas disputadas entre lideranças, divisões, rivalidades entre igrejas, ciúmes entre pastores, invejas entre irmãos, e uma variedade de atitudes que agridem o corpo de Cristo. Evidentemente, todas elas, na maioria das vezes, veladas, com aparência de piedade ou em nome do zelo pelo Evangelho, mas na essência verdadeiras “secadas”.

         Gosto de pensar na sabedoria do mestre Gamaliel, que há cerca de dois mil anos atrás, chamado a opinar sobre o ímpeto da igreja primitiva, preferiu a cautela, dizendo: “não sejamos achados lutando contra o que é de Deus”. Parafraseando o antigo conselho: “não sejamos achados secando o que é de Deus”. (Não estou com isto justificando a tolerância perante toda sorte de heresia perpetrada em nome de Deus, realidade comum aos nossos dias.)

         A beleza dos que amam o Senhor Jesus reside na desnecessidade de torcer pelo insucesso de outros; eles não disputam a primazia de qualquer coisa que seja; não são donos das verdades; não são chamados a “vingar” em nome de Deus; não se sentem confortáveis julgando; não estão clamando por “fogo do céu” contra seus próprios pares na fé. O esporte preferido dos filhos de Deus pode ser resumido na paródia à máxima esportiva: “o importante é não competir, mas amar acima de tudo”.

         Bom, mas enfim…, voltando à febre, secar los hermanos (com Maradona e tudo mais) vale? Que a consciência de cada um decida….!

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.