Porres natalinos

Piadas de bêbados, verdadeiras ou fictícias, resultam em riso certo; isso porque os ébrios soltam as amarras do bom senso que atam as relações sociais, aos goles, para desbragarem-se em mordacidades, na maioria das vezes tão engraçadas quanto inconvenientes. Aliás, um dos meus amigos pastores lembrou um colega seu que dizia: “bebeu um pouquinho vira um leão em coragem e braveza; bebeu mais um pouquinho, vira um macaco, a fazer graça para todos; bebeu mais um pouquinho, vira um porco, sujo, na sarjeta”. Animalidades a parte, o que mais chama a atenção no torpor dos alcoolizados é a completa falta de senso de valor; financiam farras sem que tenham fundos para isso, distribuem dinheiro a quem não necessita, fazendo sofrer a família, que geralmente dele depende, pervertem os valores mais elevados com discursos enfadonhos e pastosos, desafiam a segurança, têm rompantes de tristes desdobramentos, e se humilham até que o esgotamento lhes prostra nas calçadas do constrangimento.
Neste Natal, além das luzes, festas, presentes, discursos, espetáculos, e agitação de toda sorte, não haverá de faltar bêbados. Seja como resultado do alto teor etílico de muitas comemorações, literalmente, ou pelo baixíssimo nível de percepção dos celebrantes quanto ao que tem verdadeiro valor na grande festa da cristandade, figuradamente. Haverá muitas vítimas no trânsito dos desatinados ao volante, mas também inúmeras outras dos pilotos amalucados na falta de direção de suas vidas.
A embriaguez do Natal acontece por causa da fermentação do consumismo; novidades, preços altos e estímulos regados a marketing das melhores safras derrubam a sobriedade de muitos e fazem cambalear orçamentos domésticos. O contraste com a pobreza da estrebaria é tão gritante que envergonha o bom senso, faz calar a simplicidade do nascimento do menino Jesus, e obscurece o brilho da Estrela que mostrou um novo rumo para a humanidade.
A embriaguez do Natal afoga a ideia do que é realmente necessário em oceanos de superfluidade. O escandaloso materialismo do nosso tempo desorienta os rumos de famílias e da própria sociedade, graças a degustações constantes de novidades tecnológicas e confortos pessoais. A sede por facilidades faz aumentar a variedade de quinquilharias que as justifiquem, e o lixo que se acumula até no espaço sideral. Anos atrás um jovem americano lançou uma campanha, denominada “O desafio das cem coisas”, na qual incentivava o grande público a um estilo de vida mais simples, limitado a necessidades que implicassem em, no máximo, cem objetos. Não sei dizer qual foi o resultado disso, mas posso afirmar que, à primeira vista, eu mesmo teria dificuldade em vencer esse desafio. Mas o debate sobre o que é necessário não promove apenas a reflexão quanto ao que realmente necessitamos, apela ao aprofundamento sobre o que é verdadeiramente essencial no duelo entre matéria e espírito. O sentido do Natal tem sido vomitado porque seu gosto não é tolerado pelos paladares mundanos que preferem os sabores variados do ceticismo.
     Como bêbados, perdemos de vista o que realmente está em questão nesta época e em cada um dos outros trezentos e sessenta e quatro dias de cada ano: decisões presentes indissociavelmente ligadas a destinos eternos. O Cristo que nasceu em Belém, morreu na cruz, e ressuscitou para se tornar o Deus presente que incansavelmente busca oportunidades de nascer nos corações de pessoas, pela fé, de forma tão real quanto sua encarnação há cerca de dois mil anos. Somos convidados a bebê-lo como água, curativa, rejuvenescedora, que eterniza sua glória. Recusá-lo é tão temerário quanto entregar o juízo a taças bonitas, transbordantes de bebidas cheirosas e condenatórias.

Muito melhor do que sofrer com uma ressaca dos infernos, depois de algum porre natalino, é viver em sobriedade do Espírito, com discernimento para entender o que tem valor. Neste Natal não se entregue à bebedeira! Não corra riscos! Não abra mão do perfeito juízo! Mantenha-se sóbrio para entender que tudo que não glorifica a Cristo, não tem valor, é pura embriaguez! 

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.