Palavreando sobre oração

A disciplina Língua Portuguesa nunca fez parte do meu rol de temas favoritos nos tempos escolares. As notas nessa matéria eram tão somente suficientes para evitar reprovações. Curiosamente, as regras gramaticais nunca foram conflitantes com a paixão pela leitura, o amor pela literatura, e o gosto por escrever. Desde a infância delicio-me com as palavras, em todas as formas, suas sonoridades, suas construções silábicas, suas ambiguidades semânticas, suas formas visuais, e por aí vai. Já faz algum tempo estou encasquetado com a palavra oração, substantivo feminino com o sentido de ‘pedido a Deus’, mais do que conhecida, e sua relação com o verbo orar. Minhas lucubrações insistem em enxergar na primeira uma composição de duas ideias: discurso + ação. E assim, tal qual uma criança entretida em seus loopings linguísticos, repito que a conjugação correta do suplicar deveria ser oragir. Sim, porque, orar é lançar-se no plano sobrenatural das ações divinas, tanto as que Ele soberanamente coordena, quanto as que nos permite protagonizar. Orar é agir, nos mais amplos sentidos. E agir deve pressupor a antecedência da oração.
Então, eu orajo ao entender que o amor é o maior meio à minha disposição para crescer no conhecimento de Deus e viver com confiança no seu poder.

Eu orajo quando me rendo ao senhorio divino, respondendo à iniciativa amorosa (e exclusiva) do sacrifício do Filho de Deus na cruz.

Eu orajo me entregando sem reservas à insanidade de crer na Palavra, não como alguém que pula no escuro, mas como quem salta em direção à luz.

Eu orajo dobrando meus joelhos em submissão de alma, abominando o desleixo na conversa com a pessoa mais importante do universo, adotando a contrição como estilo de vida.

Eu orajo ao chamar pelo meu Pai Eterno, em angústia e dor, na certeza de que Ele me acolhe e fortalece pelo seu poder, de acordo com seus vastos e infinitos recursos.

Eu orajo quando resignado espero, sem vislumbre nenhum, exceto da bondade do Deus que me cobre, compreendendo que até na espera do crente há movimentos incessantes e confiantes do íntimo habitado pelo Espírito.

Eu orajo quando obedeço, sem racionalizar os mandamentos bíblicos.

Eu orajo quando meus pensamentos se deixam subjugar à realidade maravilhosa da onisciência de quem me criou.

Eu orajo quando freio meus impulsos de realizações, convencido de que as expectativas do Senhor do céu e da terra são mais altas do que as minhas.

         Eu orajo quando agradeço, reparto, retribuo em medida compatível com a graça não racionada, superabundante daquEle que deu seu próprio Filho para que eu não perecesse.

         Eu orajo quando vivo de tal forma que todas as minhas ações sejam para a glória de Deus.

         Enfim, o neologismo pode parecer estranho, mas as ideias agregadas em torno dele são eternamente verdadeiras, e quem garante é a gramática do idioma que é falado no céu. Nela temos todas as ‘regras’ necessárias para uma vida completa, sem palavrório inútil.

         Palavreando sobre oração me veio à mente outra possibilidade intrigante – por que não criar uma conjugação para o substantivo ? Algo como fear? Bom, isso é assunto para outro palavrório.

         Vamos oragir?

Pr. Wilson

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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