No jogo da vida não tem juiz ladrão

Não é, mas a vida até parece um jogo, no qual perder ou ganhar constituem uma dualidade onipresente. E o que é pior, a maioria de nós vive com a impressão que o time dos justos está sendo prejudicado de todo jeito. Isso fica mais evidente quando pessoas bem próximas de nós, aparentemente corretas e tementes a Deus, sofrem ou perdem mais do que julgaríamos razoável, enquanto incrédulos gozam a vida com fartura e prosperidade. A perplexidade diante disso não é privilégio de iluminados, nem mesmo é coisa nova. Cerca de três milênios atrás o tema já era tratado por homens inspirados por Deus, com a mesma inquietação de hoje. Para nós a tensão aumenta porque somos assombrados o tempo todo por pregações tecnologizadas e psicologizadas da necessidade do bem estar a qualquer custo, como parte de uma mentalidade que não faz questão de diferençar preço de valor.

No salmo 49, gente que está acostumada a lidar com as tarefas do culto a Yahweh, ainda que em um contexto diferente, e a observar todo tipo de situação, escreve uma das grandes lições de confiança, que ensina a ganhar o jogo da vida (que não é jogo). Os ensinamentos repetem realidades óbvias demais para qualquer ser humano, entretanto, penso que isso se deve à nossa grande dificuldade para aceitar aquilo que é absolutamente inquestionável, por vezes em detrimento de realidades fantasiosas. O salmista faz uma proclamação inicial marcada pela indistinção – “todos os povos escutem (…) gente do povo, homens importantes, ricos e pobres igualmente” (v. 1). Conta-se que Alexandre, o Grande, ao ver Diógenes olhando detidamente para um monte de ossos humanos, indagou: “O que procuras?”, ao que o filósofo respondeu: “O que eu não consigo encontrar – a diferença entre os ossos do seu pai e de seus escravos”.

A mensagem que o poeta bíblico quer transmitir é de sabedoria, mas ela deve ser discernida, pensada, tal como um enigma, dada sua profundidade.  Talvez por isso ele a tenha elaborado também em música, transcendendo a forma do texto religioso, em busca de significados que estão além das palavras.
Em resposta a uma pergunta retórica – “por que deverei temer, quando vierem dias maus?” – o pensador bíblico apresenta argumentos consistentes contra o medo da derrota para a injustiça.

Riqueza material não evita a morte; pode até retardá-la, pelas possibilidades maiores e melhores de tratamento médico. Sarah Winchester, herdeira de imensa fortuna, atormentada, construiu ininterruptamente, durante trinta e oito anos, vinte e quatro horas por dia, uma caótica mansão (The Winchester Mistery House), na expectativa  de escapar da morte. Quando ela morreu, em 1922, cinco milhões de dólares haviam sido gastos no prédio que tinha 150 quartos, 2.000 portas, 47 lareiras, 10.000 janelas, além de outros exageros. Restou material para que as obras continuassem por mais oitenta anos.

Não há dinheiro que compre a ‘vida de volta’. Conta-se que o magnata grego Aristóteles Onassis, falecido em 1975, teria dito, por ocasião da morte de seu filho que daria toda sua fortuna para vê-lo vivo novamente. Morreu dois anos depois sem que alguém pudesse negociar tal proposta.

A riqueza é enganosa; ainda que desfrutá-la seja fonte de prazer, e leve muitas pessoas se gabar, seu fim é tão incerto quanto abrupto. Além do que, a história mostra que nesse engano muitos perderam os limites mais comuns do bom senso. Aliás, é bom que se diga, a Bíblia não é contra a riqueza, mas condena a autossuficiência geralmente associada a ela. Os ricos estão sob condenação por sua insensibilidade e desejo de poder (v. 5;. cf. Tiago 5:1-6), não por sua abastança. (Salmos 62:10 Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração.)

A imortalidade é uma ilusão. Todos morrem, tais quais animais. Mesmo assim estudos e teorias sobre a possibilidade de driblarmos a morte se multiplicam. Uma das propostas mais surpreendentes foi feita por um norte americano (Ray Kurzweil): “um exército de robôs-médicos dentro do nosso corpo para arrumar qualquer defeito. (…) “Em duas décadas, os nanorrobôs vão fazer as mesmas funções que as nossas células ou tecidos, mas com uma precisão infinitamente maior”.[1]

Apesar de todas essas conclusões de simplicidade desconcertante, e de fácil compreensão para qualquer ser humano em qualquer época, o salmista demonstra todo seu espanto com a insistência em estilos de vida que desprezam a sabedoria (v. 13). Em outras palavras: Que tolice é viver só para o presente! Essa exclamação reflete não a rabugice de alguém que não obteve fortuna, mas o entendimento de que a eternidade é uma realidade, cujas portas se abrem com o julgamento de um juiz justo.

Somente quem deposita sua confiança exclusivamente em Deus chega à mesma conclusão do salmista – Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá.” (v. 15) – uma das mais intensas declarações sobre a imortalidade.  Ou seja,  “a morte não extingue a luz do cristão; ela a coloca para fora da lâmpada porque o alvorecer chegou”. (desconhecido).

Não somos maiores ou melhores que ninguém. Estamos nivelados pela morte. Mas os que temem a Deus podem esperar um futuro glorioso, além do mal deste mundo, certos de que a desigualdade e a injustiça serão vencidas em Cristo. Harry Ironside disse que a oferta de salvação que hoje nos é oferecida no Filho de Deus é semelhante a que foi oferecida na pessoa de Noé. O pregador e teólogo canadense observou que a arca não tinha ganchos externos, nos quais alguém pudesse se pendurar para salvar-se do dilúvio. Assim, na mesma forma, não há manobra para evitar a morte e o juízo eterno. Não há juiz incompetente que deixe de anotar nossas faltas, ou de nos punir.

Nossa vida pode ser redimida da sepultura unicamente pela intervenção daquele que deu a sua vida em resgate de muitos (cf. Mateus 20:28). NEle a imortalidade não é uma ilusão, mas uma realidade. Pode até parecer que o placar é desfavorável para os justos, mas é bom lembrar que o jogo está acabando, não haverá prorrogação, e a vitória virá não da habilidade humana, mas do lance mais ousado já articulado nos campos da história – o sacrifício de Cristo na cruz, que qualquer juiz ladrão jamais anulará.

Pr. Wilson Avilla

(Texto produzido a partir da reflexão bíblica sobre o Salmo 49, feita no culto de gratidão a Deus pela vida de Elza Zavarize Costa, por ocasião de seu sepultamento, em 11/06/2014).

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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