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A ‘estatização da família’

“Novamente aquela palavra obscena. Mas dessa vez, nenhum deles pensou em sorrir.

- Procurem imaginar o que significava “viver no seio da família”.

Eles tentaram imaginar; mas, evidentemente, sem nenhum êxito.

- E sabem o que era um “lar”?

Abanaram a cabeça.”[1]

Estamos próximos de um mundo onde família e monogamia serão criminalizados, e os conceitos de ‘pai’ e ‘mãe’ ocuparão apenas as páginas dos livros de História, se tanto?  O Estado democrático, tal e qual o temos hoje, está se transformando em um totalitarismo científico e tecnológico?  As drogas contras as quais lutamos, serão o grande instrumento de ‘pacificação social’ num futuro não tão remoto? A promiscuidade será obrigatória, e a higiene um valor supremo?  

Estas e muitas outras perguntas emergem das obras de ficção literárias e cinematográficas, e muito embora distantes antes, hoje parecem aproximar-se de nós com a velocidade de um trem descontrolado. As poucas linhas da obra de Huxley[2], acima transcritas, dão uma ideia daquilo que tem sido ambicionado pelos inimigos da família em cenários muito mais realísticos e próximos do que gostaríamos de imaginar.

Nenhum cristão tem dúvida quanto à autoria, constituição e propósitos divinos para a família. Mas não houve época na história da humanidade em que essas convicções não tivessem sofrido ataques severos. Em nossos dias tem-se a impressão que elas estão prestes a se desfazer. Ativistas que se opõe ao ‘modelo familiar tradicional’ ocupam todos os espaços midiáticos para pregar ‘novas formas de amor, organização familiar e estruturação social’, e instilar animosidades contra os ‘fundamentalistas’.

Thomas Hobbes, no século XVII, sem conhecer a imaginação dos ficcionistas e de seus colegas filósofos, à frente do seu tempo, entendia o Estado com duas faces, uma natural, na qual o poder de cada um é medido por sua força efetiva, e onde o mais forte sobrepuja o mais fraco (homo homini lúpus)[3], e outra política, que sociabiliza o homem como que por acidente, e não por natureza, em esforços coletivos para manter sua integridade. Essas duas forças sempre estiveram em convulsão por causa do pecado, do ponto de vista teológico, e sob a perspectiva humanista, por sua incapacidade de prover felicidade e suprir necessidades de todos. Como um monstro enraivecido – não é à toa que Hobbes tomou de empréstimo do livro de Jó o termo ‘leviatã’, animal gigantesco citado no capítulo 41 – o Estado tem avançado furiosamente contra seus ‘protegidos’ em monitoramentos ostensivos, como um ‘grande irmão’[4], vigiando cada passo de qualquer cidadão; condicionando comportamentos de massas, à semelhança de laranjas mecânicas; multiplicando práticas burocráticas kafkianas; e prostituindo-se por interesses financeiros espúrios.

Como se tudo isso já não fosse suficientemente assustador, criancinhas e adultos devem se apavorar com as investidas estatais sobre a família, e em especial a mais recente, que diz respeito à disciplina de filhos. Não há como ignorar o ensino da Bíblia sobre os benefícios da correção que educa, e que por vezes é física sim. O que não significa dizer que as Escrituras incentivem agressões e abusos, ou espasmos paternos e maternos de raiva e frustração sobre os filhos. Elas recomendam: “Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno” (Provérbios 23:13,14).  “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” (Provérbios 29:15). A ‘estatização das famílias’ criará mais algumas situações de conflito entre a lei dos homens e a Lei de Deus. A inimizade do mundo contra Deus é crescente e não tem escrúpulos para inverter valores, perverter costumes e manipular informações para atingir seus intentos.

Melhor seria, embora muito mais difícil, o Estado confrontar todo o poderio econômico que há no consumo de drogas legais ou não, anulando com isso um dos maiores fatores de degradação social, e diminuindo consideravelmente a mortandade infanto-juvenil. Maior lucro haveria se o Estado limitasse a nefasta sexização da sociedade impedindo que ele próprio tenha que arcar com os elevadíssimos custos sociais da promiscuidade. Grande proveito se encontraria no estímulo ético dado pelas instituições estatais, em especial aquelas implicadas diretamente na manutenção da segurança da nação.

A família não será destruída, porque não é criação de homens. Tampouco será estatizada, ainda que os princípios que a fundamentam sejam atacados e contestados veementemente. Não será apagada, mesmo que a sociedade caminhe para um ‘admirável mundo novo’. Ela continuará sendo o grande meio para experimentarmos o amor de Deus, as virtudes da sua graça, e a beleza da esperança que há em Cristo! Enfim, a família não será estatizada. No Reino de Deus será restaurada à condição de unidade divina, de uma vez por todas.




[1] Trecho de “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley

[2]“Admirável Mundo Novo”

[3] “O homem é o lobo do homem”

[4] Alusão à obra “1984” de George Orwell

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.