A cultura do macarrão instantâneo

Sou ansioso confesso. Mas quem não é? Com a parafernália que invadiu nossas vidas essa ansiedade foi potencializada e exposta cruelmente. Flagro-me vez por outra desligando o micro-ondas dois segundos antes do término dos minutos de funcionamento que eu mesmo programei. Reclamo da lentidão do computador, o que, na prática, corresponde a alguns nanosegundos a menos que qualquer outro mais novo. Perco a paciência com o telefone celular, deixado mais e mais para trás nas filas numéricas de atualizações de aparelhos e softwares, causando-me a impressão de caminhar mais devagar que a civilização. Não consigo evitar as comparações com o carro mais bonito, mais confortável, mais potente que para ao lado no semáforo, criando em uma arrancada a ilusão de derrota como se a vida se resumisse a uma disputa de bólidos em videogames.
A satisfação pessoal tornou-se refém dos códigos tecnológicos, e a felicidade que sempre foi resultado do encanto com o caminho da existência, se tornou um produto qualquer a ser consumido por meio de telas e teclas, em curtições cada vez mais instantâneas, e em processos que um dos mais eminentes pensadores atuais do declínio da civilização, Zygmunt Bauman, tem chamado de modernidade líquida. Em suas reflexões ele alerta: “(…) podemos falar legitimamente do “fim do futuro”. Vivemos o fim do futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá.”[1]
Diante disso, preocupo-me em particular com as novas gerações de urbanoides que desconhecem qualquer processo de plantio, cuidado e colheita. Alimentam-se de macarrão instantâneo e tudo que conseguem esperar é o descongelamento de químicas empacotadas. O futuro para esses é tão somente a próxima sensação de bem estar. E minha preocupação não diz respeito à comida, ao computador, ao tipo de telefone, ou modelo de carro que eles ou todos nós venhamos a utilizar e consumir, mas a uma mentalidade que desaprendeu a olhar para a frente com um mínimo de responsabilidade. O que pode ser dito, em outra forma, como: plantar, construir, guardar, preservar, investir, para usufruir mais e melhor no futuro.
“No pensamento bíblico, a eternidade significa o tempo sem fim. No helenismo, os homens ansiavam pela libertação do ciclo do tempo em um mundo além, onde não houvesse tempo, mas no pensamento bíblico o vocábulo tempo descreve a esfera da existência humana tanto agora como no futuro.”[2]Através de muitas parábolas Jesus  alertou com mais profundidade do que Bauman sobre a necessidade de pensar no futuro de forma bastante prática – construindo-o com atitudes responsáveis no presente. A ação de Deus ‘entrando no tempo e na história para oferecer uma existência restaurada, de plena comunhão com Ele’ é a maior demonstração de seu interesse em uma vida completa de significado (cf. João 20:31; João 3:16; João 10:10).
A cultura do macarrão instantâneo é uma mentalidade que domina o nosso tempo, na qual sensações cada vez maiores, no menor tempo, são buscadas a qualquer preço, sem preocupações com significados ou consequências de qualquer ordem. Embora a paráfrase de Marcos 8:36 possa ser questionada, arrisco-me a fazê-la: “O que aproveita ao homem cozinhar a melhor das refeições em alguns segundos,  usufruir da maior velocidade já alcançada de processamento de um computador, usar a tecnologia de comunicação mais avançada do planeta, dirigir o carro mais veloz de todos os tempos, dentre outras coisas estupendas, e perder a sua alma?”


Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.