A casa dos espelhos

Uma mulher que se sentia solitária e abandonada procurou um conselheiro cristão. Enquanto ela explicava como se sentia, ele não conseguia se concentrar no que ela estava dizendo, porque a Escritura fluía em sua mente: “…foi Ele que nos fez, e não nós a nós mesmos;” (Salmos 100:3). O versículo não tinha qualquer ligação aparente com aquela história de vida, mas ele não conseguia parar de pensar nisso. Depois que ela terminou de falar ficou à espera de uma resposta. James Michaelson não sabia o que dizer além de citar o verso, embora isso lhe parecesse sem relação com os problemas relatados. Ele então rompeu o silêncio e disse: “Eu acho que Deus quer que você saiba alguma coisa: ‘Foi Ele quem nos fez, e não nós a nós mesmos’. Isso significa alguma coisa para você?” De imediato, ela abaixou a cabeça e começou a chorar. Depois de se recompor contou que seu nascimento não fora desejado, e que durante toda a sua vida havia crido que ela era um erro, um acidente. Mas ao ouvir a Palavra de Deus sua percepção da maneira maravilhosa como ela havia sido formada pelo Criador no ventre de sua mãe dominou-lhe por inteiro e ela concluiu: “Agora sei que Deus me criou e que eu não sou um erro.”[1]

A mentalidade secular (disfarçada sempre sob modernidades compostas) tem lutado de todas as formas para destruir a ideia de que o homem foi criado por Deus à sua imagem. (cf. Gênesis 1:26-28). No princípio Ele era a referência que satisfazia plenamente qualquer ser humano na plenitude da comunhão, em toda a sua glória, e com o semelhante. Com o pecado, essa referência se quebrou no coração do homem, a imagem do Criador foi desfigurada e os padrões de relacionamentos tornaram-se fragmentados, auto referenciados, marcados pelo medo, egoísmo, e pela necessidade constante de sobrepujar qualquer ser tido como igual. O mundo se tornou um grande parque de diversões, com uma enorme casa de espelhos, já que todas as imagens que o homem passou a ter de si mesmo tornaram-se deformadas, graças também à ação do inimigo de Deus.

Nessa profusão de espelhos, imagens diversas passaram a representar, com grandes deformações, o que é o homem. Ele se olha no espelho da vontade e realmente acredita, pelo que vê por suas próprias concepções, que a vida é produto do acaso, e que o destino incerto tem as formas do que a vista e a mente alcançam. Cercado de visões ilusórias ele ignora que o plural majestático do texto bíblico que narra a criação do homem é também uma demonstração lógica do critério de antecedência da imagem divina na eternidade.

Distraídos pelas sugestões engraçadas das lâminas de vidros metalizadas, em imagens alongadas ou reduzidas, que escondem a luz da imortalidade, qualquer filho de Adão não percebe que imagem e semelhança que nele estão refletidas têm o brilho do caráter e da moral do Deus que criou e ainda cuida de sua obra.

Em qualquer superfície polida e limpa o ser humano pode enxergar o domínio que exerce sobre a terra e os animais, oriundo do mandato de Deus. Mas perdido em labirintos de reflexos que o cegam ele prefere abrir mão de seu domínio delegado para se deixar dominar por toda sorte de falácia ou mentira.

Na confusão de imagens que se sobrepõem, pelas interferências de quem não tem compromisso com a verdade, ao som de risos, homens e mulheres igualmente confusos se veem como seres desconectados, acreditando em reproduções mentirosas de sexualidade sem unidade, sem família, sem amor. Na crueldade das deformidades o homem é um animal, privado por ele mesmo do privilégio de ser instrumento de Deus da perpetuação de Sua imagem. Gerar uma vida não é uma sequência de ‘Crtl C’s e ‘Crtl V’s de DNAs, mas um legado espiritual compartilhado pelo próprio Senhor da Vida.

O pecado é a maior deformação humana. Como um espelho quimérico gigantesco e assustador ele esconde a sacralidade do homem, feito ser espiritual desde sua gênese. A maldade velada da Casa dos Espelhos avilta os seres vivos racionais mentindo sobre sua dignidade, destino e liberdade. Acabar com ela não é fim do humor, é na verdade o começo da verdadeira alegria.

Não nos deixemos enganar. Fomos todos criados por Deus, e Ele continua trabalhando para que sejamos restaurados, em Cristo, à semelhança da Sua imagem (cf. Romanos 8:29 “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”; e 2 Coríntios 3:18 “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.”).

Pr. Wilson Avilla

(síntese da reflexão bíblica sobre Gênesis 1:26-28, por ocasião do culto de aniversário da Cristolândia, na Igreja Batista Nova Jerusalém, em Santos, dia 22/06/2014

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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