A cara da riqueza

Um dos destaques do noticiário da semana é a inauguração do maior espaço religioso do Brasil, na cidade mais populosa do país, construído a preço de centenas de milhões. A grandiosidade impressiona, a ponto de um órgão de impressa mencionar que perto dessa construção o Cristo Redentor do Rio de Janeiro, com apenas a metade do tamanho, parece um penduricalho.[*]

As primeiras reações diante de tanto fausto, da parte de incrédulos e de crentes, são de apelação previsível. Na mais comum dessas, a matemática, que empresta seu pragmatismo a qualquer causa, é sempre chamada a demonstrar quantas criancinhas famintas do Brasil ou da África (sempre o grande ícone da miséria) poderiam ser alimentadas, comparativamente, com a mesma quantia gasta, e por aí vai a mesma lenga-lenga de sempre, como se argumentos para um uso mais eficiente dos recursos fosse bastante. Mas a discussão não é essa; na instância do que realmente interessa a questão não é a distribuição de renda, mas prioridades. John Piper lembra que “não conseguimos nos fazer parar de valorizar o dinheiro acima de Cristo. Mas Deus pode. Isso são boas novas”.

Na verdade, a cara da riqueza, mesmo, em acepções de vida bem mais amplas, é o desapego material. As Escrituras mostram que aquilo que nos impressiona pode não ser importante para quem criou todas as coisas, tal como é dito na orientação de Deus a Samuel: “…porque o Senhor não vê como o homem vê, pois o homem olha para a aparência, mas o Senhor, para o coração.”(1 Samuel 16:7b). Ou seja, os critérios de Deus são outros. Não poucas vezes Jesus teve que lidar com pessoas que estavam dominadas pelo amor aos bens materiais, e expor a miséria desses corações endurecidos para a fé. A única forma de alcançar o padrão divino para uma vida de riquezas eternas é uma entrega de vida ampla e irrestrita a Jesus Cristo, naquilo que John Bunyan chamou de conversão, definindo-a não como um processo suave e fácil como algumas pessoas imaginam. Se assim fosse, complementa ele, o coração do homem jamais teria sido comparado a um solo não cultivado, e a Palavra de Deus, a um arado. Em outras palavras, a cara da riqueza é uma vida convertida a Jesus Cristo.

A verdadeira cara da riqueza é a fé. Gióia Júnior, poeta sacro de rara inspiração disse: “ouve a voz de Deus, imensa, poderosa, fica em pé… abre os olhos para a crença e os ouvidos para a fé.” É a fé que nos capacita a olhar para o mundo e enxergar o que é prioritário segundo os propósitos de Deus.

         A cara da riqueza é a gratidão. E gratidão é sempre uma questão de perspectiva. Embora no contexto bíblico ela seja mandamental, no âmbito da vida prática ela precisa ser descoberta dia a dia, no mesmo processo da descoberta experiencial do relacionamento com Deus. Matthew Henry disse: “Agradecer é bom, mas viver agradecido é melhor”.

         A cara da riqueza é experimentar o poder do único Deus que é maior que tudo. Anselmo disse que Deus é por definição o maior ser concebível. E se algo maior do que Ele pudesse ser concebido, então isso seria Deus. Por isso todos os que vivem sob o favor do poder de Deus são ricos e abençoados.

         A cara da riqueza é a graça de Deus. Ela não é racionada, não é fracionada, é nada mais, nada menos que a oferta de salvação ao homem pobre, incapaz de prover salvação por seus próprios méritos em desmedidas manifestações.

Deus é dono de toda a riqueza. Ele é a ‘cara da riqueza’, mas ela não está à serviço da vaidade do homem nem por empréstimo. Nenhum aparato, por grandioso que seja, nenhuma fortuna, nenhum poder, nenhum símbolo, nenhuma força, nenhuma religião, nenhuma pessoa, nada mesmo, pode nos fazer ricos, senão Jesus Cristo, nossa esperança! (cf. Cl. 1:27).

Pr. Wilson Avilla

http://cristianismohoje.com.br/?p=1029

Sobre o autor
Pr. Wilson Ávilla é pastor na IBNJS e escreve para o blog Crônicas do Nosso Tempo.

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